domingo, 21 de julho de 2019

Cérebro Desprezado

Desespero brando, sentimento horroroso.
Não me dá permissão nem de me descabelar, nem de repousar em paz.
É o sentimento de descontrole controlado, de saber que as coisas estão caminhando pro abismo mas que ainda não chegaram lá; e se não chegaram lá, eu não posso dizer, com propriedade, se o rumo pela qual elas caminham é o do abismo.
É o não saber, amanhã cedo, da rotina a ser seguida, do plano a ser executado, e das tarefas a serem cumpridas. Me observo agora, como fui e sou escrava da rotina, escrava do ter o que fazer e para onde ir. Sem isso, me vejo perdida. Sem futuro.

Estamos há um mês (sem muita certeza quanto a isso) em Christchuch e ainda não encontrei um emprego adequado. Na verdade, não encontrei emprego. As quantidades de vezes em que trabalhei aqui, numa fábrica panificadora, posso contar nos dedos das mãos. Pagou as contas iniciais, evitou que tirássemos muito da poupança. Mas não nos chamam mais, e os dias continuam a passar.
Em princípio fiquei feliz, pois a fábrica é nauseante em termos de repetição e robótica.
É humilhante pensar que meu cerébro, meu tão poderoso e querido cérebro, que por anos eu nutri com carinho de cultura, informação e aprendizado, este mesmo cérebro é totalmente desprezível no trabalho da fábrica.
A cada segundo que ele pensa, é um segundo a menos da minha agilidade da esteira dos bolinhos. A fábrica me dispensa de pensar, para meu bom funcionamento como máquina articulada: mãos, braços, dedos e costas, trabalhando em esteiras, acertando bolinhos, contando rosquinhas, empacotando, fazendo caixas. Não pensar é pré requisito para um bom desempenho na fábrica. E eu não estou acostumada a não pensar.

Hoje, no entanto, nem a fábrica eu tenho mais. Há tempo de sobra para pensar, e só o que eu penso é no campo minado em que me encontro. A cada três e-mails a procura de emprego que envio, recebo duas respostas negativas à minha inscrição. Sem entrevista, sem telefonema, sem bate papo: descarte imediato. Será algum problema no currículo? O que devo acertar para que, pelo menos, possam me convidar para um bate papo?

Meu cérebro foi desprezado na fábrica, e segue sendo ignorado pelos demais campos de trabalho. Não estou acostumada a ser ignorada nesta área. Não, sobretudo não nesta área. Meus antigos empregadores me convidavam a ficar; quando viam que era inútil, lamentavam muito a minha partida. Enviavam mensagens de apoio depois do meu desenlace. Eu sempre fui uma pedra valiosa nos meus ambientes de trabalho. Eu nunca fui dispensável. E agora eu sou (ou pelo menos estou dispensável).

"Não, obrigada!", "Agradecemos seu interesse e o tempo em se inscrever na vaga!", "Lamentamos, no entanto, que sua inscrição na siga para a próxima fase.". Que pé na bunda maior pode haver, para uma mulher independente, do que depender de esdrúxulas e insignificantes respostinhas de inscrição de trabalho? Que não te olham nos olhos, não questionam seu potencial, não te humanizam? A cada resposta negativa é mais um café amargo que eu engulo. Não sei o que fazer.
A situação é desesperadora, mas nem tanto. Temos dinheiro, embora não tenhamos folga, e isso me incomoda. Mais do que tudo, tenho tempo, tempo de sobra e não o utilizo, não produzo, não recebo.
Me sinto mal, meu cerebro pior ainda. Ele não está acostumado a se sentir desprezado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Quem matou Marielle?

São Paulo, 07 de novembro de 2018 - 21h00

Os dias estão voando. Passada a euforia e transformado o luto da inevitável questão, parece que a ficha começou a cair: tanto para nós quanto para ele.
Da nossa parte,  voltamos ao trabalho e aos estudos, ensimesmados e forçosamente adaptados à ideia de que "agora é isso, e agora vai ser assim"; ele, recheia todos os horários jornalísticos e alguns outros não jornalísticos; segue indicando nomes estapafúrdios para ministérios, fundindo ministérios e tirando medidas para o terno da posse. Hoje foi a reunião com o presidente atual, Michel Temer. Serão organizadas as equipes de transição de governo e eu me pergunto o que passa na cabeça dessa gente que estava realizando um trabalho sério nas pastas governamentais e que de repente, deverão entregar seus preciosos materiais de trabalho - que nada mais é do que a vida do Brasil - para alguns brutais com suas canetas vermelhas e trituradoras de papel. Se fossem só essas suas armas, seria muito mais tranquilo.

Dentre as dezenas de nomes que vocês ouvirão em algum momento sobre o período político (e apocalíptico) que estou vivendo hoje, eu lhes sugiro dedicar alguns minutos a mais com o nome Marielle Franco. Vocês não tiveram a oportunidade de sentir o gelo na alma que foi a notícia do assassinato brutal de uma das mulheres mais fortes que perpassou pela minha época. A Marielle foi a primeira morte política que eu chorei. E eu espero que vocês não saibam tão cedo o que é isso, mas chorar a morte de alguém, dessa maneira, tão repentina, é a coisa mais ingrata que existe. A cada respiração sua a mente vai e volta, a mente recria a pessoa, a mente tenta reconstruir um cenário que a bala não atinja, que o resgate tenha sido feito a tempo, e as voltas da mente caem sempre no mesmo buraco, o buraco negro da morte. As balas pegaram em cheio, três tiros bem acertados na cabeça; nem haveria possibilidade de resgate, Marielle morreu na hora. Junto dela, o motorista Anderson, um pai que pagou com a vida por uma batalha insana da qual ele nem pertencia; ou pertencia, também. Se considerarmos que a batalha é este contexto chamado Brasil, todos somos combatentes e todos podemos ser mortos, mesmo que não façamos ideia do porquê e de para quê.

Quando a Marielle morreu, parte do sentimento de morte, a certeza que o cerco vinha fechando se concretizaram em mim. Não haveria espaço pra insubordinações como era a própria Marielle. A sua morte não teve um plano mirabolante para parecer um assalto, para soar como um acidente, uma fatalidade. A sua morte foi um claro recado pro contexto Rio de Janeiro, pro contexto Brasil e principalmente pras comunidades a qual ela representava: execução. Bem calculada, friamente cumprida, sem necessidade de maquiar qualquer aparência. Marielle foi morta por quem recebeu treinamento formal para atirar. Não é qualquer um que enfia cirurgicamente três balas na cabeça de uma mesma pessoa dentro de um carro em movimento.

A Marielle tinha um compromisso concreto e constante com a comunidade da Maré. Isso implicava meter as mãos num emaranhado muito fino e perigoso onde polícia e ladrão é tudo a mesma coisa, e no final quem sofre são os pobres. Quando procurarem por ela, deixem que Marielle venha a seu encontro. Não se precipitem em atribuir características nem caracteres a ela, deixem que a sua história de vida fale por si só. Vivenciando sua morte no ato, como foi pra mim, foi também uma guerra de desinformação e validação. Mas deixem que esta mulher preta e forte, como o tronco de uma nogueira, falem em seus ouvidos. Nunca deixem de se perguntar.

O que levaria uma vereadora a ser executada, se não fosse o seu poder de mudar a ordem? Eu espero que quando chegar a hora de vocês lerem este texto, o assassino de Marielle e as forças que ele representa já estejam em seus devidos lugares pelas mãos da justiça, cumprindo pena, julgados e condenados. Até o presente momento em que me encontro, o assassino de Marielle continua sendo o silêncio.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Quem é ele e quem são eles

São Paulo, 31 de Outubro de 2018 - 18h55

É difícil enumerar as ideias, as indignações e as explicações para lhes dizer em que momento tudo isso começou, e em que pé estamos. A minha teoria é de que isso não começou, isso sempre existiu, e assim como num jogo de esconde-esconde da história, os ódios, os preconceitos e os gritos por morte hora aparecem, hora se encondem. Bem, eles estão não só na fase de aparecer, mas de se aparecerem com orgulho. Para pessoas como eu, nascidos há não muito tempo, numa época em que estes ódios estavam bem guardados, é bizarro vê-los à mostra sem pudores. Mas que eles existem, isso é fato inegável.

O candidato escolhido à presidência da república que assumirá o cargo em 01 de janeiro de 2019, e governará (possivelmente) até 31 de dezembro de 2022 é um homem já de certa idade e algum tempo de carreira política chamado Jair Messias Bolsonaro. (O fato do nome dele estar sendo escrito aqui pode atrair alguém da sua patrulha da perseguição de liberdade de expressão, mas isso não me assusta. Estou salvando cópias destes escritos em ambientes que eles não poderão acessar). Este homem, um militar reformado, afastado do exército, prega desde seu ingresso na política ideias de conservadorismo, religião e disciplinamento militar; como um bom pracinha brasileiro, ele odeia o comunismo, e conseguiu a façanha incrível de adestrar seus seguidores na ideia de que "esquerda" é comunismo; na verdade, tudo aquilo que vai contra ele, ou que consegue demonstrar o quanto ele e sua corja são medíocres e perigosos, é comunismo. Foi o que ele disse sobre a revista The Economist e sobre o teórico Fukuyama, dois ícones do liberal-capitalismo, apenas porque eles expuseram o quanto ele era perigoso não só para o Brasil, mas para o mundo. O episódio foi tão ridículo que o próprio Fukuyama conseguiu zoar o Bolsonaro. Vai entender.

No momento, ele é considerado um homem "polêmico" por declarações diversas em que suas falas rudes e esdrúxulas não escondem preconceitos e conceitos por determinados grupos, como negros, homossexuais, imigrantes, mulheres, povos indígenas e membros de religiões diferentes da sua. Suas declarações mais antigas (início da década de 90) só diferem das declarações atuais por um certo tom de moderação. É provável que algum marqueteiro político o tenha instruído a amansar estes discursos podres, e foi tão eficaz nisto que não faltaram negros, homossexuais, mulheres e membros de religiões diferentes da sua apoiando sua candidatura e fazendo peso na divulgação de campanha. Mais tarde falo sobre isso.

A mim, pessoalmente, o homem Jair Bolsonaro não assusta. O ditado diz que uma única andorinha não faz verão, logo, um único militar ensandecido, babando de raiva não forma um Estado de exceção. O perigo é que ele não é apelidado de "Capitão" a toa. Uma legião de apoiadores o segue e confia nele, alguns por identificação, outros por projeção. O conjunto de ideologias que ele carrega (sejam elas fictícias ou não) são como o agitar de um pequeno imã nos corações de ferro de seus seguidores. A atração é tão grande, e em alguns casos tão passional, que parece impossível apartá-los depois da união. Ele foi o que gritou mais alto tudo aquilo que estas pessoas vinham guardando no peito, deixando escapar muito cuidadosamente, em ocasiões raras, cercados apenas por amigos confiáveis. Ele se orgulhou de muitas falas incongruentes com o mundo que queremos, mas tão nítidas no mundo em que vivemos. Percebem o que estou tentando dizer? Suas falas são a verbalização de coisas que sempre existiram, mas que eram ditas apenas no abafado cômodo da intolerância vigiada. Ao abrir a boca e gritar bem alto, ele estimulou outras bocas; e este abafado cômodo foi ganhando espaço, e deixando de ser asfixiante. Agora, este cômodo é praticamente 1/4 do Brasil inteiro. E quando ele assumir, é possível que este cômodo fique ainda maior. Talvez leve um tempo para que fechemos novamente tudo isso dentro da caixa de Pandora... até lá, temos que seguir lutando.

Desde a confirmação de sua vitória nas eleições democráticas (seriam estas as últimas que verei?, me pergunto), seus apoiadores que saíram do cômodo aproveitaram a euforia da conquista para exteriorizar alguns de seus princípios - que, creio eu que assim eles creem - estão garantidos agora como leis pétreas de absolvição. Um aluno da Universidade Mackenzie, estagiário de um escritório de advocacia, chamado Pedro Baleotti fez um vídeo para as redes sociais onde comemora a vitória de Bolsonaro e aproveita para mandar um recado: "essa negraiada vai morrer!". Ele diz isso enquanto aponta com uma arma, e expressa também sua ansiedade por encontrar algum "ptralha" ou "vagabundo com camiseta vermelha" para poder matar. O candidato afirma que estes atos isolados não tem vinculação com sua postura política. Isso, no entanto, é muito engraçado, pois a maioria dos que estão envolvidos em atos como estes vestem uma camisa com seu rosto.

Caso esteja difícil de visualizar (não sei como será o mundo quando vocês estiverem lendo isso), nos dias em que eu vivo o porte de armas é controlado rigorosamente, praticamente "ilegal" no Brasil. Só pessoas autorizadas podem portar arma de fogo. Fazer apologia a crime, homicídio em especial, também é ilegal. "Negraiada" também é uma palavra ofensiva e racista, e racismo no Brasil ainda é crime; e por último, dirigir usando celular é considerado crime. Este cidadão estaria enquadrado em diversas categorias da criminalidade, mas até o momento segue em liberdade. O que sabemos até agora é que ele foi demitido do escritório onde trabalhava e suspenso pela faculdade.

Isto para ilustrar quem ele é e quem eles são. Ele é um homem onde está impressa uma ideia de Brasil, e eles são o exército que protestam pela implantação dessa ideia de Brasil.

Seria injusto deixar de mencionar que as pessoas que votaram nele são diversas. Sem dúvida há milhares que votaram em Jair Bolsonaro que não concordam com matança descriminalizada e irresponsável, como este jovem gostaria de fazer. Mas todos os eleitores deste homem concordam que ele tem uma saída para o "problema" do Brasil. O problema, na cabeça da maioria, é a corrupção, aberta e publicamente exibida pelos governos do Partido dos Trabalhadores. As pessoas só esquecem de traçar os rastros de suas linhagens familiares e pessoais para descobrirem que não há um único cidadão que pisa em solo do planeta Terra que não seja corrupto. Mas aqui no Brasil, parece que somos mestres na arte do corromper e ser corrompido.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Quem sou eu e quem são vocês

São Paulo, 30 de Outubro de 2018 - 20h13

A vocês que irão nascer,

Prazer, eu sou sua mãe. Me chamo Maria Helena Branco Vitorino, mas todos me chamam (e eu gosto assim) de Helena. Tenho vinte e cinco anos e é um pouco assustador escrever para vocês.
A começar de que a ideia de escrever para filhos que ainda não nasceram é bizarra, em especial para uma feminista que vive o ano de 2018, onde a maternidade entra cada vez mais em desuso, está ficando fora de moda.
Pensar que um dia vocês existirão é, ao mesmo tempo que certo, apavorante e engraçado. Querem experimentar? Tentem se imaginar neste exato momento pai ou mãe de um filho adolescente. Inusitado, não?
Há pelo menos dois dias venho elaborando cartas mentais endereçadas a entes futuros que ainda não conheço. Chamá-los de "filhos" é apenas uma denominação para tudo aquilo que vem depois de mim, e provém de mim. Mas meus filhos podem ser qualquer um que venha ler isso daqui há muitos anos, porque qualquer pessoa que vier a partir de agora, provém de mim.
A necessidade de lhes escrever o que irei escrever é quase que fisiológica, ou psicográfica. Está urgindo uma necessidade de lhes contar como são as coisas enquanto elas estão quentes, enquanto elas se materializam, e lhes passar o máximo de veracidade, precisão e detalhes que eu conseguir.
Estes registros também servem de memória para que eu me lembre de quem eu fui, e de tudo aquilo que eu fiz, porque é quase certo que um dia a memória coletiva de tudo aquilo que acontece hoje será carcomida. Os jornais reescrevem, reescrevem e nestes rascunhos que vão se editando, a história inteira fica pra trás. Vocês provavelmente já sabem, mas a Nossa História (a história da qual eu pertenço e vocês também, por tabela) é rotineiramente apagada e reescrita.
Por este motivo, assumo o compromisso agora, aqui neste exato momento, de lhes deixar o meu relato mais honesto e fiel que eu puder, para que quando abrirem seus livros no futuro (haverá livros? me faço sempre esta pergunta) tenham outro espaço onde confrontar a História.

Eu não sei como vocês serão, mas gostaria que soubessem como eu sou. Um retrato simples de mim pode ser descrito como uma mulher comum, de cabelos cacheados, livres e pretos, com peso e estatura insignificantes; inconformada, inteligente, esforçada e também desaforada. Tenho uma porção de livros no meu quarto, uma luz de cabeceira, um notebook e algumas velas. Sou apaixonada por cinema, por música e cultura, mas acima de tudo pelo conhecimento. Se eu pudesse pedir algo ao Mago da Lâmpada Mágica, seria que ele me desse todo o tempo do mundo livre apenas para estudar e conhecer.

O título deste blog foi extraído do poema "Aos que Vão Nascer", de Bertolt Brecht.

Esta foto foi tirada em 21 de agosto de 2018 pelo Diego. Nós estávamos nos preparando para inscrição do visto para morar na Nova Zelândia. É exatamente deste cantinho que eu vos escrevo hoje. Esta sou eu.

Cérebro Desprezado

Desespero brando, sentimento horroroso. Não me dá permissão nem de me descabelar, nem de repousar em paz. É o sentimento de descontrole co...