quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Quem é ele e quem são eles

São Paulo, 31 de Outubro de 2018 - 18h55

É difícil enumerar as ideias, as indignações e as explicações para lhes dizer em que momento tudo isso começou, e em que pé estamos. A minha teoria é de que isso não começou, isso sempre existiu, e assim como num jogo de esconde-esconde da história, os ódios, os preconceitos e os gritos por morte hora aparecem, hora se encondem. Bem, eles estão não só na fase de aparecer, mas de se aparecerem com orgulho. Para pessoas como eu, nascidos há não muito tempo, numa época em que estes ódios estavam bem guardados, é bizarro vê-los à mostra sem pudores. Mas que eles existem, isso é fato inegável.

O candidato escolhido à presidência da república que assumirá o cargo em 01 de janeiro de 2019, e governará (possivelmente) até 31 de dezembro de 2022 é um homem já de certa idade e algum tempo de carreira política chamado Jair Messias Bolsonaro. (O fato do nome dele estar sendo escrito aqui pode atrair alguém da sua patrulha da perseguição de liberdade de expressão, mas isso não me assusta. Estou salvando cópias destes escritos em ambientes que eles não poderão acessar). Este homem, um militar reformado, afastado do exército, prega desde seu ingresso na política ideias de conservadorismo, religião e disciplinamento militar; como um bom pracinha brasileiro, ele odeia o comunismo, e conseguiu a façanha incrível de adestrar seus seguidores na ideia de que "esquerda" é comunismo; na verdade, tudo aquilo que vai contra ele, ou que consegue demonstrar o quanto ele e sua corja são medíocres e perigosos, é comunismo. Foi o que ele disse sobre a revista The Economist e sobre o teórico Fukuyama, dois ícones do liberal-capitalismo, apenas porque eles expuseram o quanto ele era perigoso não só para o Brasil, mas para o mundo. O episódio foi tão ridículo que o próprio Fukuyama conseguiu zoar o Bolsonaro. Vai entender.

No momento, ele é considerado um homem "polêmico" por declarações diversas em que suas falas rudes e esdrúxulas não escondem preconceitos e conceitos por determinados grupos, como negros, homossexuais, imigrantes, mulheres, povos indígenas e membros de religiões diferentes da sua. Suas declarações mais antigas (início da década de 90) só diferem das declarações atuais por um certo tom de moderação. É provável que algum marqueteiro político o tenha instruído a amansar estes discursos podres, e foi tão eficaz nisto que não faltaram negros, homossexuais, mulheres e membros de religiões diferentes da sua apoiando sua candidatura e fazendo peso na divulgação de campanha. Mais tarde falo sobre isso.

A mim, pessoalmente, o homem Jair Bolsonaro não assusta. O ditado diz que uma única andorinha não faz verão, logo, um único militar ensandecido, babando de raiva não forma um Estado de exceção. O perigo é que ele não é apelidado de "Capitão" a toa. Uma legião de apoiadores o segue e confia nele, alguns por identificação, outros por projeção. O conjunto de ideologias que ele carrega (sejam elas fictícias ou não) são como o agitar de um pequeno imã nos corações de ferro de seus seguidores. A atração é tão grande, e em alguns casos tão passional, que parece impossível apartá-los depois da união. Ele foi o que gritou mais alto tudo aquilo que estas pessoas vinham guardando no peito, deixando escapar muito cuidadosamente, em ocasiões raras, cercados apenas por amigos confiáveis. Ele se orgulhou de muitas falas incongruentes com o mundo que queremos, mas tão nítidas no mundo em que vivemos. Percebem o que estou tentando dizer? Suas falas são a verbalização de coisas que sempre existiram, mas que eram ditas apenas no abafado cômodo da intolerância vigiada. Ao abrir a boca e gritar bem alto, ele estimulou outras bocas; e este abafado cômodo foi ganhando espaço, e deixando de ser asfixiante. Agora, este cômodo é praticamente 1/4 do Brasil inteiro. E quando ele assumir, é possível que este cômodo fique ainda maior. Talvez leve um tempo para que fechemos novamente tudo isso dentro da caixa de Pandora... até lá, temos que seguir lutando.

Desde a confirmação de sua vitória nas eleições democráticas (seriam estas as últimas que verei?, me pergunto), seus apoiadores que saíram do cômodo aproveitaram a euforia da conquista para exteriorizar alguns de seus princípios - que, creio eu que assim eles creem - estão garantidos agora como leis pétreas de absolvição. Um aluno da Universidade Mackenzie, estagiário de um escritório de advocacia, chamado Pedro Baleotti fez um vídeo para as redes sociais onde comemora a vitória de Bolsonaro e aproveita para mandar um recado: "essa negraiada vai morrer!". Ele diz isso enquanto aponta com uma arma, e expressa também sua ansiedade por encontrar algum "ptralha" ou "vagabundo com camiseta vermelha" para poder matar. O candidato afirma que estes atos isolados não tem vinculação com sua postura política. Isso, no entanto, é muito engraçado, pois a maioria dos que estão envolvidos em atos como estes vestem uma camisa com seu rosto.

Caso esteja difícil de visualizar (não sei como será o mundo quando vocês estiverem lendo isso), nos dias em que eu vivo o porte de armas é controlado rigorosamente, praticamente "ilegal" no Brasil. Só pessoas autorizadas podem portar arma de fogo. Fazer apologia a crime, homicídio em especial, também é ilegal. "Negraiada" também é uma palavra ofensiva e racista, e racismo no Brasil ainda é crime; e por último, dirigir usando celular é considerado crime. Este cidadão estaria enquadrado em diversas categorias da criminalidade, mas até o momento segue em liberdade. O que sabemos até agora é que ele foi demitido do escritório onde trabalhava e suspenso pela faculdade.

Isto para ilustrar quem ele é e quem eles são. Ele é um homem onde está impressa uma ideia de Brasil, e eles são o exército que protestam pela implantação dessa ideia de Brasil.

Seria injusto deixar de mencionar que as pessoas que votaram nele são diversas. Sem dúvida há milhares que votaram em Jair Bolsonaro que não concordam com matança descriminalizada e irresponsável, como este jovem gostaria de fazer. Mas todos os eleitores deste homem concordam que ele tem uma saída para o "problema" do Brasil. O problema, na cabeça da maioria, é a corrupção, aberta e publicamente exibida pelos governos do Partido dos Trabalhadores. As pessoas só esquecem de traçar os rastros de suas linhagens familiares e pessoais para descobrirem que não há um único cidadão que pisa em solo do planeta Terra que não seja corrupto. Mas aqui no Brasil, parece que somos mestres na arte do corromper e ser corrompido.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Quem sou eu e quem são vocês

São Paulo, 30 de Outubro de 2018 - 20h13

A vocês que irão nascer,

Prazer, eu sou sua mãe. Me chamo Maria Helena Branco Vitorino, mas todos me chamam (e eu gosto assim) de Helena. Tenho vinte e cinco anos e é um pouco assustador escrever para vocês.
A começar de que a ideia de escrever para filhos que ainda não nasceram é bizarra, em especial para uma feminista que vive o ano de 2018, onde a maternidade entra cada vez mais em desuso, está ficando fora de moda.
Pensar que um dia vocês existirão é, ao mesmo tempo que certo, apavorante e engraçado. Querem experimentar? Tentem se imaginar neste exato momento pai ou mãe de um filho adolescente. Inusitado, não?
Há pelo menos dois dias venho elaborando cartas mentais endereçadas a entes futuros que ainda não conheço. Chamá-los de "filhos" é apenas uma denominação para tudo aquilo que vem depois de mim, e provém de mim. Mas meus filhos podem ser qualquer um que venha ler isso daqui há muitos anos, porque qualquer pessoa que vier a partir de agora, provém de mim.
A necessidade de lhes escrever o que irei escrever é quase que fisiológica, ou psicográfica. Está urgindo uma necessidade de lhes contar como são as coisas enquanto elas estão quentes, enquanto elas se materializam, e lhes passar o máximo de veracidade, precisão e detalhes que eu conseguir.
Estes registros também servem de memória para que eu me lembre de quem eu fui, e de tudo aquilo que eu fiz, porque é quase certo que um dia a memória coletiva de tudo aquilo que acontece hoje será carcomida. Os jornais reescrevem, reescrevem e nestes rascunhos que vão se editando, a história inteira fica pra trás. Vocês provavelmente já sabem, mas a Nossa História (a história da qual eu pertenço e vocês também, por tabela) é rotineiramente apagada e reescrita.
Por este motivo, assumo o compromisso agora, aqui neste exato momento, de lhes deixar o meu relato mais honesto e fiel que eu puder, para que quando abrirem seus livros no futuro (haverá livros? me faço sempre esta pergunta) tenham outro espaço onde confrontar a História.

Eu não sei como vocês serão, mas gostaria que soubessem como eu sou. Um retrato simples de mim pode ser descrito como uma mulher comum, de cabelos cacheados, livres e pretos, com peso e estatura insignificantes; inconformada, inteligente, esforçada e também desaforada. Tenho uma porção de livros no meu quarto, uma luz de cabeceira, um notebook e algumas velas. Sou apaixonada por cinema, por música e cultura, mas acima de tudo pelo conhecimento. Se eu pudesse pedir algo ao Mago da Lâmpada Mágica, seria que ele me desse todo o tempo do mundo livre apenas para estudar e conhecer.

O título deste blog foi extraído do poema "Aos que Vão Nascer", de Bertolt Brecht.

Esta foto foi tirada em 21 de agosto de 2018 pelo Diego. Nós estávamos nos preparando para inscrição do visto para morar na Nova Zelândia. É exatamente deste cantinho que eu vos escrevo hoje. Esta sou eu.

Cérebro Desprezado

Desespero brando, sentimento horroroso. Não me dá permissão nem de me descabelar, nem de repousar em paz. É o sentimento de descontrole co...