São Paulo, 30 de Outubro de 2018 - 20h13
A vocês que irão nascer,
Prazer, eu sou sua mãe. Me chamo Maria Helena Branco Vitorino, mas todos me chamam (e eu gosto assim) de Helena. Tenho vinte e cinco anos e é um pouco assustador escrever para vocês.
A começar de que a ideia de escrever para filhos que ainda não nasceram é bizarra, em especial para uma feminista que vive o ano de 2018, onde a maternidade entra cada vez mais em desuso, está ficando fora de moda.
Pensar que um dia vocês existirão é, ao mesmo tempo que certo, apavorante e engraçado. Querem experimentar? Tentem se imaginar neste exato momento pai ou mãe de um filho adolescente. Inusitado, não?
Há pelo menos dois dias venho elaborando cartas mentais endereçadas a entes futuros que ainda não conheço. Chamá-los de "filhos" é apenas uma denominação para tudo aquilo que vem depois de mim, e provém de mim. Mas meus filhos podem ser qualquer um que venha ler isso daqui há muitos anos, porque qualquer pessoa que vier a partir de agora, provém de mim.
A necessidade de lhes escrever o que irei escrever é quase que fisiológica, ou psicográfica. Está urgindo uma necessidade de lhes contar como são as coisas enquanto elas estão quentes, enquanto elas se materializam, e lhes passar o máximo de veracidade, precisão e detalhes que eu conseguir.
Estes registros também servem de memória para que eu me lembre de quem eu fui, e de tudo aquilo que eu fiz, porque é quase certo que um dia a memória coletiva de tudo aquilo que acontece hoje será carcomida. Os jornais reescrevem, reescrevem e nestes rascunhos que vão se editando, a história inteira fica pra trás. Vocês provavelmente já sabem, mas a Nossa História (a história da qual eu pertenço e vocês também, por tabela) é rotineiramente apagada e reescrita.
Por este motivo, assumo o compromisso agora, aqui neste exato momento, de lhes deixar o meu relato mais honesto e fiel que eu puder, para que quando abrirem seus livros no futuro (haverá livros? me faço sempre esta pergunta) tenham outro espaço onde confrontar a História.
Eu não sei como vocês serão, mas gostaria que soubessem como eu sou. Um retrato simples de mim pode ser descrito como uma mulher comum, de cabelos cacheados, livres e pretos, com peso e estatura insignificantes; inconformada, inteligente, esforçada e também desaforada. Tenho uma porção de livros no meu quarto, uma luz de cabeceira, um notebook e algumas velas. Sou apaixonada por cinema, por música e cultura, mas acima de tudo pelo conhecimento. Se eu pudesse pedir algo ao Mago da Lâmpada Mágica, seria que ele me desse todo o tempo do mundo livre apenas para estudar e conhecer.
O título deste blog foi extraído do poema "Aos que Vão Nascer", de Bertolt Brecht.
Este é um diário de dias difíceis. Ele está sendo escrito para que o tempo, ao corroer tão bem a memória coletiva, não leve dos registros fixados a realidade dos dias. Também é uma ferramenta de recuperação de sanidade mental, desabafo diário, e de manter a fé na fé.
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