quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Quem matou Marielle?

São Paulo, 07 de novembro de 2018 - 21h00

Os dias estão voando. Passada a euforia e transformado o luto da inevitável questão, parece que a ficha começou a cair: tanto para nós quanto para ele.
Da nossa parte,  voltamos ao trabalho e aos estudos, ensimesmados e forçosamente adaptados à ideia de que "agora é isso, e agora vai ser assim"; ele, recheia todos os horários jornalísticos e alguns outros não jornalísticos; segue indicando nomes estapafúrdios para ministérios, fundindo ministérios e tirando medidas para o terno da posse. Hoje foi a reunião com o presidente atual, Michel Temer. Serão organizadas as equipes de transição de governo e eu me pergunto o que passa na cabeça dessa gente que estava realizando um trabalho sério nas pastas governamentais e que de repente, deverão entregar seus preciosos materiais de trabalho - que nada mais é do que a vida do Brasil - para alguns brutais com suas canetas vermelhas e trituradoras de papel. Se fossem só essas suas armas, seria muito mais tranquilo.

Dentre as dezenas de nomes que vocês ouvirão em algum momento sobre o período político (e apocalíptico) que estou vivendo hoje, eu lhes sugiro dedicar alguns minutos a mais com o nome Marielle Franco. Vocês não tiveram a oportunidade de sentir o gelo na alma que foi a notícia do assassinato brutal de uma das mulheres mais fortes que perpassou pela minha época. A Marielle foi a primeira morte política que eu chorei. E eu espero que vocês não saibam tão cedo o que é isso, mas chorar a morte de alguém, dessa maneira, tão repentina, é a coisa mais ingrata que existe. A cada respiração sua a mente vai e volta, a mente recria a pessoa, a mente tenta reconstruir um cenário que a bala não atinja, que o resgate tenha sido feito a tempo, e as voltas da mente caem sempre no mesmo buraco, o buraco negro da morte. As balas pegaram em cheio, três tiros bem acertados na cabeça; nem haveria possibilidade de resgate, Marielle morreu na hora. Junto dela, o motorista Anderson, um pai que pagou com a vida por uma batalha insana da qual ele nem pertencia; ou pertencia, também. Se considerarmos que a batalha é este contexto chamado Brasil, todos somos combatentes e todos podemos ser mortos, mesmo que não façamos ideia do porquê e de para quê.

Quando a Marielle morreu, parte do sentimento de morte, a certeza que o cerco vinha fechando se concretizaram em mim. Não haveria espaço pra insubordinações como era a própria Marielle. A sua morte não teve um plano mirabolante para parecer um assalto, para soar como um acidente, uma fatalidade. A sua morte foi um claro recado pro contexto Rio de Janeiro, pro contexto Brasil e principalmente pras comunidades a qual ela representava: execução. Bem calculada, friamente cumprida, sem necessidade de maquiar qualquer aparência. Marielle foi morta por quem recebeu treinamento formal para atirar. Não é qualquer um que enfia cirurgicamente três balas na cabeça de uma mesma pessoa dentro de um carro em movimento.

A Marielle tinha um compromisso concreto e constante com a comunidade da Maré. Isso implicava meter as mãos num emaranhado muito fino e perigoso onde polícia e ladrão é tudo a mesma coisa, e no final quem sofre são os pobres. Quando procurarem por ela, deixem que Marielle venha a seu encontro. Não se precipitem em atribuir características nem caracteres a ela, deixem que a sua história de vida fale por si só. Vivenciando sua morte no ato, como foi pra mim, foi também uma guerra de desinformação e validação. Mas deixem que esta mulher preta e forte, como o tronco de uma nogueira, falem em seus ouvidos. Nunca deixem de se perguntar.

O que levaria uma vereadora a ser executada, se não fosse o seu poder de mudar a ordem? Eu espero que quando chegar a hora de vocês lerem este texto, o assassino de Marielle e as forças que ele representa já estejam em seus devidos lugares pelas mãos da justiça, cumprindo pena, julgados e condenados. Até o presente momento em que me encontro, o assassino de Marielle continua sendo o silêncio.

Cérebro Desprezado

Desespero brando, sentimento horroroso. Não me dá permissão nem de me descabelar, nem de repousar em paz. É o sentimento de descontrole co...